A Surpresa do Ingênuo

A surpresa do ingênuo é descobrir que foi otário, que se deixou enganar, que confiou quando não deveria, que deu a mão quando não podia; achando que faria um bem, se fez mal, e também fez mal ao aproveitador, que deixou de aprender alguma coisa, que deixou de fazer alguma coisa que lhe ajudaria a crescer, a ser alguém melhor.

A surpresa do ingênuo é perceber que, por mais que tivesse certeza, se enganou, inventou em sua cabeça uma pessoa que não existe, e isso é o que decepciona mais; descobrir que a tal pessoa na qual acreditou, só existe mesmo na sua imaginação.

A tristeza do ingênuo é se sentir subtraído, não materialmente, mas na alma; pior que se sentir traído, é se sentir burro demais por não perceber coisa tão óbvia; é perceber que o erro maior foi seu, e que por mais que prometa a si mesmo que isto nunca mais voltará a acontecer, sabe que continuará sempre ingênuo, será sempre aquele bom e velho otário.

A alegria do ingênuo é quando descobre que existem alguns nos quais se pode confiar, ao contrário do que as suas experiências anteriores demonstraram. Que algumas raras pessoas, ainda que em certos momentos inspirem desconfiança, acabam por surpreender mostrando-se verdadeiras e leais, consigo e com os outros. Nesses momentos de deslumbramento e revelação, é que o ingênuo descobre que a falha não está em si mesmo, por confiar demais, e sim naqueles que não honraram a sua fé.

E assim seguem pela vida os ingênuos, numa constante batalha entre confiança e desconfiança, decepção e surpresa. Cada vez tendo mais certeza de que valeu a pena; que em cada tropeço, avança-se 5 passos no caminho da sabedoria.

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